| A arte
de administrar o tempo (matéria de capa) - Revista Amanhã
Vivemos a era da competição, uma competição
patológica. Somos uma geração de neuróticos
que teve de ampliar absurdamente seus horários de trabalho
para sobreviver no mundo dos negócios.” Não há
como contestar o parecer do cardiologista Fernando Lucchese, autor
de diversos livros sobre como ter uma vida saudável e livre
do estresse. Dia após dia, a busca por um lugar ao sol na economia
globalizada força as pessoas a abrir mão das horas de
lazer e sono para dedicá-las à rotina estafante do trabalho.
Talvez o problema nem pareça assim tão sério
– quem nunca varou as madrugadas para concluir um relatório
ou uma apresentação à diretoria da empresa, por
exemplo? Mas essa invasão das pendências do escritório
na rotina pessoal é a causa de uma frustração
que, se não tratada, pode levar a depressão, hipertensão,
insônia e distúrbios digestivos. Em casos mais extremos,
gera isolamento e tensão na família. Seu nome: “falta
de tempo”.
Tratar desse mal não é tarefa das mais fáceis.
O dr. Lucchese, por exemplo, costuma dizer que o ideal seria se as
pessoas dividissem as 24 horas do dia em três partes: oito horas
para o trabalho, oito para o lazer e outras oito para o sono. Mas
ele próprio reconhece que isso está cada vez mais distante
de acontecer. Pesquisas do Grupo Catho, de São Paulo, mostram
que um executivo chega a trabalhar mais de 12 horas por dia no Brasil.
Quanto mais alta sua posição na hierarquia da empresa,
maior a jornada. Resultado: mesmo com toda a campanha contra o estresse
promovida pelos organismos de saúde, cerca de 40% dos executivos
brasileiros sofrem desse mal atualmente. Entre as mulheres, o problema
é ainda maior. Além de trabalharem tanto quanto os homens,
muitas delas são responsáveis pelos afazeres domésticos.
Um levantamento do instituto de pesquisas CPM Research comprova que,
diariamente, a mulher urbana brasileira desempenha, em média,
mais de 50 atividades. Inevitavelmente, conclui o estudo, ela acaba
transferindo seu lazer, hobbys e entretenimento para o único
horário disponível – entre 6h e 8h da manhã.
“Sua vida profissional está evoluindo, mas a um preço
caro: está mais solitária e suas prioridades pessoais
foram colocadas em segundo plano”, avalia Oriana White, pesquisadora
da CPM Research.
Metas definidas – Por incrível que
pareça, a saída para se livrar da falta de tempo
não é só diminuir as horas de trabalho. Especialistas
em gerenciamento do tempo pregam que a solução é
saber dedicar os momentos livres, por poucos que sejam, a tudo
que for realmente importante na vida – ao invés de
ficar plantado à frente da televisão ou apenas dormindo.
Muitas vezes, garantem, o que parece um merecido descanso é
simples perda de tempo, desperdiçado em atividades que
não acrescentam nada à rotina.
É por isso que, atualmente, boa parte dos livros sobre
administração das horas deixou de tratar apenas
da jornada de trabalho – embora o escritório continue
sendo a principal fonte de reclamações dos que “não
têm tempo”. Dois desses livros, em especial, oferecem
o que há de mais completo sobre o assunto. Um se chama
First Things First, do americano Stephen Covey (Editora Campus,
453 páginas). O outro é O Que Mais Importa, do também
americano Hyrum Smith (Editora Best-Seller, 296 páginas).
Juntos, Covey e Smith ensinam que o tempo só é bem
administrado a partir do momento em que se tem a resposta para
duas perguntas: “quem sou eu?” e “quais são
as metas importantes para a minha vida?”. |
Wagner, da PowerSelf:
tudo na agenda |
Os métodos de Covey foram criados no final da década de
80, após o autor analisar alguns livros sobre como lidar com
o relógio. Ele percebeu que a maioria das obras ensinava simplesmente
a organizar e despachar os afazeres profissionais com mais rapidez,
como se a falta de tempo fosse um problema restrito ao ambiente de trabalho.
Resultado: as pessoas economizavam tempo, mas não sabiam o que
fazer com ele. Muitas vezes, relata Covey, usavam os minutos extras
para resolver pendências esquecidas na gaveta e, assim, mofavam
no escritório até tarde da noite. Hoje, qualquer empresário
disposto a dedicar seu tempo ao que é realmente importante já
seguiu para a etapa do gerenciamento de tempo eficaz: a de se planejar
para alcançar todas essas metas pessoais e profissionais.
Jorge Gerdau: compromissos
classificados conforme a importância
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Prioridades primeiro – Um bom planejamento
é a base de qualquer sistema de administração
do relógio. O problema é que, geralmente, as pessoas
não sabem como planejar. Muitas acham que basta listar
os afazeres do dia e ir rabiscando ‘o.k.’ ao lado
de cada um, à medida que são concluídos.
O caminho não é esse. “Para fazer um bom planejamento,
o primeiro passo é definir qual é a prioridade de
cada tarefa. E reservar sempre mais tempo àquilo que é
prioritário para você ou para sua empresa”,
aconselha Mozart Pereira dos Santos, diretor executivo da Fundação
Dom Cabral, uma das principais escolas de executivos do Brasil.
Nem é preciso muito esforço. Um estudo da Universidade
de Bradford, na Inglaterra, mostra que as pessoas gastam, em média,
meros 15 minutos para concluir um planejamento semanal. Atualizar
uma agenda costumeiramente usada é ainda mais rápido:
10 minutos diários. Para tornar tudo mais fácil,
vale também classificar as pendências conforme uma
convenção qualquer. O empresário Jorge Gerdau
Johannpeter, por exemplo, tem sua própria convenção.
Todas as manhãs, ele dedica alguns minutos a planejar os
compromissos do dia. “Divido cada um de acordo com o grau
de importância”, revela o executivo. “A”
são as tarefas prioritárias, que somente ele pode
cumprir. “AA” são as que têm lá
seu peso, mas podem ser adiadas ou delegadas a alguém.
E, finalmente, “AAA” é a classificação
dada aos afazeres dos quais Johannpeter trata de se livrar. “O
mais importante é feito primeiro”, resume Johannpeter. |
Um dos “ladrões de tempo” mais comuns é
a desorganização das informações importantes
para o trabalho. Estudos revelam que as pessoas perdem, em média,
28 minutos por dia à procura de papéis, números
de telefone, lembretes ou simples reportagens que gostariam de ler.
Felizmente, o problema é fácil de se resolver. “A
saída é guardar todas essas informações
de referência num único lugar. De preferência,
em uma agenda que a pessoa carregue sempre consigo”, indica
Jaime Wagner, presidente da PowerSelf, empresa que vende cursos e
agendas especiais para gerenciamento do tempo. Só isso, afirma,
já elimina parte considerável daqueles papelotes e post-its
grudados no monitor do computador.
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